Rua da Graça 58
"São Francisco", um poema.
Foto de Kiko Lisboa, 2016; duas crianças banhando-se nas águas do Velho Chico.
O poema “São Francisco”, como dito na postagem anterior, figura no livro Auto da Romaria, de 2017. Há apenas dois personagens, por assim dizer; diferente de “O riacho”, com quatro ouvintes. Os dois são: a persona-lírica narradora e José, um pescador. A consequência lógica era o poema do rio ser maior do que o do córrego. E assim foi feito. O São Francisco é literalmente o rio da minha aldeia, Bom Jesus da Lapa, Bahia.
SÃO FRANCISCO Para Érico Nogueira I Eis o rio soturno que medita sob a luz do Cruzeiro do Sul; vai na planície mortal, mas infinita, constelando as imagens que retrai. Aqui e lá em cima, as quatro margens sustentadas por linhas siderais: numas a plenitude da viagem e nessas, seu espelho: São Francisco. Contemplemos o seu fluxo selvagem — milênios através, viu e foi visto. No cerco dessas águas, mil romances ponderam com o barro o velho rito de viver ou não ter vindo, e sem chance de negações ingratas e refregas. O rio e os seus dois reinos num só lance colhem meu coração, e ele celebra esse silêncio se expandindo régio, e se concentra quanto mais trafega, lembranças centelhando sortilégios — a vida menos sobre a vida mais, a luz na luz, clarão dum privilégio de perdas consentidas, desiguais. Ressurreição sem corpo, dói de frágil, água e lume escapando pelo cais. Nas duas margens colho os meus naufrágios, que a imaginação não imagina e se imagina cobra o seu pedágio: o tédio, feito névoa e areia fina, embaça o milagroso, e assim, adensa as marcas do meu rosto, e contamina com o seu velho vírus a presença que me habita, revela e me sustém. Limpar angústia — diz uma sentença vinda dos juazeiros sem ninguém visível anunciando-a. Mas José — tem da canoa o treino, e tem também a ciência dos remansos, sem má-fé, dos peixes dessas águas a conversa, das funduras o alcance do seu pé — de longe acena, já me viu. Dispersas, as brisas se aproximam, nos enredam. José sabe da margem que alicerça o murmúrio do rio, as coisas medram; entre o capim, a canoa ele escora. Quedamo-nos enquanto as trevas quedam, e na simplicidade que o devora: “Quem encerrou os ventos no seu punho? Quem faz do agora todos os agoras? Quem põe o frio na amplidão de junho? No céu da noite lança os seus cavalos? E faz mover o mundo em redemunhos? Qual margem-reprimenda a comportá-Lo? Os três rios — aqui, dali, de lá. Que ribeira, a mais alta, pra abarcá-Lo? Tenho palavras, mas palavra é ar — esboça do Seu pouco uma fração? Velho, cansado e pobre? Claro está a quem me vê; quem vê o coração? O que nem foi sentido e já sabido, aquilo nem pensado e é inclusão? Não se pergunte, João, como um sofrido — fatigado de me desentender — arvora-se às enchentes do Incontido (sente-se, pois demora a amanhecer); pensa que seja o chumbo da tolice — menos conhece, pensa conhecer, ou voos cegos e vagos da velhice, e suas melindragens; sei da fúria dos pântanos da falta e da mesmice, desaguando na via mais espúria, e seus vácuos que vão do céu ao grão, infernos circulares por incúria da carne esmigalhada de exaustão, o gozo cansativo se retece, repete a repetir, repetição; esse mel malogrado que apodrece os dedos, todo o espírito, a paisagem; não mais bastava o absurdo de finesse, e o mundo pareceu-me desvantagem: comecei a caçar os meus culpados... (Acenda outro cigarro na friagem). Naquelas ilhas, lá desse outro lado (à meia-luz da lua não são vistas, imagine-as), pois há dois povoados; perdido como quem se autodespista, fui o que não sou, fui sempre a fingir. Se vergonha ou orgulho? É feia a lista dos frutos semeados no porvir — pois o homem secular já nasce antigo — é fala de um amigo, anoto aqui. Assim nasci — no século-jazigo, de início, eu me perdi. Porque não pude, não podia escavar além do umbigo; aos deuses mais covardes e mais rudes, carnífices em pele de utopia, lancei dissipador a juventude e fiz da luz a lama do meu dia; mais perdido que cego em tiroteio, enchi as mãos de prêmios sem valia: os rastejos de bicho, e bicho alheio ao abismo sem fim que o enredou, o descer e descer num mau coleio a arquibancada do seu pobre show; esse quinhão amargo da matéria — final de campeonato perde o gol, e muitos outros prêmios de miséria recebidos, impostos, que me dei, mas como quem retalha a própria artéria, ah, dentro do delírio eu inflamei: não mais! Com as escamas arrancadas e o visto refinando em outra lei, com nojo devolvi as tais nonadas — a Besta travestida em perfeição, láureas de lodo em luz destransformada num horizonte feito não e não. Frustrou da morte o rito por cansaço e do cansaço ergueu o seu brasão: desse lado demência e descompasso, nesse outro a demência como norma. Do esmagado, cuspindo os seus bagaços, o mundo é sempre o mundo sem reforma. No cúmulo sangrento da revolta, nonada faz da morte plataforma. (Tal canto é um cantar de contravolta. Rezemos, a manhã se põe de joelhos, murmura lumes de uma velha escolta). II Narciso adormeceu à beira-espelho, mas sem a turvação de nenhum sonho; a alma, livre do falso conselheiro, se alçou à Fonte autêntica sem onde — Piedade lavou tamanha errância, Esperança me abriu as suas frondes, purguei e purgaria a minha herança hedionda com perdão, mas não esqueço as culpas que atirei na vizinhança. Como esconder? Deus sabe os endereços, o acontecido não desacontece. Tive de começar do meu começo, pois duvidava até de que pudesse. A crosta vira nódoa, e não deslustra; da nódoa refiz ouro, e ouro em prece. A prece ganhou dor, mas dores justas, a chama purifica a substância; o sopro neste mundo — quanto custa! E muitos falam alma e é dissonância, mas outros falam alma em vez de sanha, se esquecem no futuro ou na infância; e muitos se aniquilam em barganhas perdidas de saída e sem regresso; aqueles já erigem foz, montanha, apodrecendo como um deus possesso bem apodreceria em dor humana os seus tantos fracassos inconfessos! E vi sem enxergar o ‘nos irmana’ — o mapa imêmore de tais campinas que a noite lega ao tempo em filigranas, as inscrições de arcanjos em surdina. Dizem algo? O convite de retorno... Ah, minh’alma menina, vai contínua; o corpo, o pobre corpo é um adorno, não consegue retê-la — explodiria. Ah, minh’alma menina, o parco entorno, ao sabê-la, sublima e acaricia; a qualquer hora ou lugar me declama a sua indefinível alegria; densidade suave de quem ama e se entrega sem ônus, no abandono tranquilo feito amante após a cama, de quem se descobriu alma e colono — cultiva o que lhe deram, mais florisse e devolvesse grato ao seu patrono; ah, minh’alma menina, a meninice..., mas não mitiga os fardos desta vida, nem vazia nem cega tal meiguice, enlaça o mundo, as coisas e as feridas que todos nós suamos; transfigura e transcende o seu berço de partida; ah, minh’alma, menina e já madura, estava sempre aí, tardei demais, mas li — além de mim — a assinatura; tão pródiga nos brilhos sazonais: algo se dava, como aquela vez, com a hora suspensa, à beira cais, entrei na dimensão da lucidez; algo se deu na peça toda inteira — contra o rio ia o barco dessa vez... —, meus caminhos se ataram na algibeira, o coração no centro da certeza; algo se dá — a gota verdadeira, não posso descrever tal inteireza, se é que outros fulgores consegui, instante a nos ferir com a clareza do Amor sem véus a nos dizer: aqui! Tempo dentro do tempo revelado, transparência total descrita em si, mas tudo que eu tentar será falhado, não pode a mão conter o pensamento; a íris do real me pôs alado — quem pode traduzir o próprio vento? Ouviam-me a folhagem e essas águas, mas eu sei, o amor é o apagamento das perguntas, responde sem palavras; ah, minh’alma menina... Na corrente, a manhã luz e lida já alinhava, me vou no meu discurso transparente: Quem estabeleceu os fins da terra? Quem amarrou as águas na semente?” O sol açula o dia atrás das serras. Deito-me à beira-fluxo, na grandeza, um átomo no cosmo. Ao longe, erra a brancura da garça em ligeireza, tão clara como a vida nestas plagas, tão difícil no seu voo sem vileza. Vou-me também, insone que naufraga no pó desses barrancos, dor serena, pois sabe e aceita o nó de sua chaga. Julho enfim se despede, agosto acena. O São Francisco vibra na estiagem, seu curso dessedenta em cantilenas as vidas afligidas pelas margens; cadê vapor, remeiros?, nunca mais..., pobreza posta à venda na voragem, favelas, palafitas aos caudais, seu plástico, seu flandres, esse pus segrega os seus gerânios funerais, no rastro da carniça os urubus; e caem margens, barranco desbarranca. Uso a mão como pala em quebra-luz e vejo discurseiras e pelancas, desmatamos o espírito, no fim. Aprenda a lição d’água, a lição franca — se infiltra e remodela o que é ruim, e, feito um bicho, expulsa as parasitas, e lento recomeça o seu jardim feito pacientes aves carmelitas, de grão a grão, pecado após pecado, a terra morta, um dia, ressuscita. Deixemos o esplendor, mesmo estragado, sonhemos essa origem desejável muito além da nascente e seus cuidados — falo como se alguém ouvisse afável, mas vou só, subo e sei dessa cidade onde nasci – ali e irrevogável. Agosto adentra o espaço, e a claridade é tanta que a vertigem se arrebenta e o tempo à porta implora mais idade. Hora de soalheira tão cruenta — o mundo é fel e pede refrigério. Em Bom Jesus da Lapa, a luz fomenta os fios fundadores do mistério. Almas em romaria vão chegando, é quase dia seis, o dia sério. Nessa firmeza de quem vai passando entre os pregões de bancas e mais bancas, tumulto de barracas, num desmando a cidade como feira, que destranca mascates, camelôs, e mais fileiras, pelas ruas, a vida das sulancas, só quer vender e vende essas canseiras, os pacotes, embrulhos, as sacolas..., O tempo — atente! — nos bate a carteira, pivete em fuga que ninguém controla. Nas escadas da porta da Igreja, encontro o peditório, a vida esmola — a mão pedinte, ganha ou nos pragueja, porém nós, todos nós somos pedintes, miserabilidade que lateja nesse primeiro passo e no seguinte, degrau após degrau começa o Morro. O silêncio é custoso, fez-se ouvinte da música da rocha — é um socorro, amar o seu provérbio na subida; as trilhas espinhentas sem suborno, escarpas, precipícios e descidas a cada vez são novas num rebrilho sem tédio de alvorada comovida. — Tudo que vive é sagrado — estribilho pensado com o bardo. Já cansado de quem, pé ante pé, vai andarilho, agradece o suor e o caminhado, agradece o calcário e os hemisférios, a surpresa de ser e esse punhado tão imenso, do sopro como império; agradece a paisagem e o possível, a lentidão da vida em seus minérios; ah, minh’alma menina, irredutível, vai subindo, subindo e vai subindo, lá em cima, o Cruzeiro do invisível aguarda luminoso o que vai indo. No rigor da viagem resplandeço, consteladas imagens vão se abrindo, pela planície dupla o recomeço, num vislumbre do topo, as coisas rimam na aliança infinita, eu emudeço — de ponta a ponta as margens se aproximam, uma mão consagrando a outra mão, o sol, o céu, o mundo já ultimam, e o São Francisco flui na imensidão. 14/03/2013 – 21/02/2016



Magnífico. Puro ouro, caro João. Louvado seja Deus pelo seu dom, meu amigo.
Amigo, largo e caudaloso como o Rio São Francisco. Eu fico encantada com as imagens que você produz. Eu me emociono toda vez. Me encanta, me encanta, me encanta!!! 🥹🥹🥹🩷🩷🩷