Rua da Graça 57
"O riacho", um poema.


O poema “O riacho” figura no livro A dimensão necessária, de 2014; o “São Francisco” pertence ao Auto da Romaria, de 2017; já “Atlântico” saiu primeiro na revista Unamuno: http://unamuno.com.br/ , e integra Ao sul do labirinto, de 2022; esses três volumes foram publicados pela editora Mondrongo. Publico abaixo “O riacho”. O seu “território” foi inspirado na casa do meu avô materno, situada num lugarejo chamado Estiva, próximo a cidade de Riacho de Santana, interior da Bahia. Naquela casa, que não existe mais, passei as minhas férias de menino pobre.
Os três poemas — “O riacho”, “São Francisco” e “Atlântico” — foram pensados como uma sequência, embora tenham aparecido em livros distintos. Assim, a trajetória se inicia com o riacho (ou corgo) da casa do meu avô, continua com o rio São Francisco, onde, na margem direita, está minha cidade natal, Bom Jesus da Lapa, e deságua no Atlântico, no caso, o mar de Salvador, onde moro há mais de duas décadas. Contas feitas, levei dez anos na feitura dos três. Ao todo são 780 versos. No entanto, os três podem ser lidos e entendidos separadamente; bem, assim acredito eu.
Minha intenção é publicar, nas próximas semanas, os outros dois poemas.
O RIACHO
Vai a voz do riacho mansamente,
descendo pela mata em desmemória,
desperta verdejante na vertente.
As águas, na suave trajetória,
conhecem seixos, aves e raízes
e os recantos de luz contraditória —
delicada e violenta em seus matizes,
ali, onde a folhagem mais espessa
é densa treva (irmã da luz em crise
constante, tanto mais rejuvenesça).
Essas águas recantam em surdina e
contam daquela casa sempre avessa,
mas vista com justeza na colina
por quem vai por ali; águas cantantes
dos que habitam a casa clandestina
e convivem no exíguo circundante;
pois de cômodo a cômodo, o conflito
de uma estreiteza interna sufocante
a cada morador, e tal atrito
adentra o calabouço, e a luz dual
do candeeiro queima os seus mosquitos.
O riacho é o ouvinte natural
dos que beberam dele; assim, do extremo
quarto vem uma queixa inicial:
“Do pouco que sabemos só sabemos
da cegueira sedenta deste corpo,
sua canção finita, que blasfemo
ou jubilo com roncos feito um porco,
ou um anjo e o seu hálito fremente
no meu rosto; ao final, caio de borco
no charco do desejo descontente, e
recomeço cansado da armadilha,
ilha perdida busca um continente,
à deriva, pois tudo que palmilha
na corrente se torna detestável,
vazio no vazio se ensarilha:
tudo que em mim é vil e miserável
e ao me deitar corrompe os travesseiros,
o recinto mais fundo e inescapável
(o verso quer clarificá-lo inteiro,
porém fracassa) vai sendo sondado
à revelia e às cegas, sem roteiro,
e com uma avidez de condenado,
não quer, mas vê a dimensão do estrago
(doido conquistador, foi conquistado),
sabedor de que só o sangue é vago,
da vida sendo apenas a parcela
e nela não passando de um afago.
Mas é sempre passagem e por ela
esse instante integral de luz patente,
que a amendoeira ao vento sul revela;
esse instante e não outro, contundente,
onde, nascidos do primeiro espanto,
estamos pendurados no presente
invisível, como um rosário ao santo,
e ele nos alimenta feito um feto;
esse instante integral no qual me planto,
é mistério palpável e concreto
como no rosto uma primeira ruga;
mas o instante-princípio é incompleto
para a nossa insaciável sanguessuga.”
O lamento se cala e novamente
escutamos o corgo em sua fuga.
Agora esse murmúrio adjacente
levanta-se do quarto ao lado norte,
da voz mais solitária procedente:
“Na casa-coração nosso transporte
é a profunda inteireza da Presença,
transubstanciação maior que a morte,
tornando a vida imensa, imensa, imensa...
O sincero exercício de unidade,
o sentido inconsútil da evidência,
que desce e transfigura..., na verdade,
ele é intraduzível sendo claro,
por ser simples o todo na metade.
O que quero se não posso nomeá-lo?
O trismo de atingir luciferino
o cerne inatingível desse raro
colóquio procurado de menino?
E como tenho andado sob o sol
sem sombras, meu secreto clandestino,
devasso a vastidão interna em prol
da ácida nudez dos corações,
as lâminas de luz abrindo o rol,
os corredores, salas e os porões.
Ó séculos de Sócrates sonhados
em tão espiraladas solidões,
difícil e doce disciplina, fado
com sua estrela cega e portuguesa
como aquele boi rijo em seu arado
a sulcar o seu campo de incertezas.
A inábil auto-esgrima que pratico
muitas vezes resulta em avareza,
ora um, ora outro eu danifico
com recuos ou golpes desonestos;
não posso amplificar, não amplifico
esses dois lutadores manifestos
na arena-coração...” Morosamente
o murmúrio se abaixa sem protesto,
o sol do meio-dia contundente
abrasa o entorno, a mata sofre; alguém
sai da casa e caminha inconsequente,
desce pra estrada e entoa com desdém:
“Contemple sem a angústia-tradução,
sem a insistência-nome, pois convém
ao sangue e ao sonho, ao que é vital ou vão.
Por entre as folhas esse sol segreda,
acaso, os seus intentos ou razão?
Melhor será colher as suas pedras e
guardá-las para às estações mesquinhas;
canário nos relata em feia queda:
a morte em nós enfim se aquece e aninha.
Do incômodo empenando o lado esquerdo
— memórias, culpas duplas, dor daninha —,
despenha ainda mais com o arremedo
de saltério vibrado inutilmente
enquanto queimo os pés neste lajedo.
Falso consolo, música aparente,
sentido que entrevi ou flor fortuita
nascida nos jardins intranscendentes?
Clareira onde me encontro e me circuita
em vez de circundá-la com meu pranto,
irrompe de uma fonte não gratuita;
caído lentamente eu me levanto
e procuro na mata o meu riacho;
escuto perto o líquido acalanto,
na beira, em genuflexo, então me agacho;
o corpo bebe, mas a sede é grave,
e se nutre da luz do próprio facho.
Cisternas que cavei, e mais escave
me perco na descida sem retorno,
as portas encontradas sem as chaves,
mas se aberta uma porta, outro transtorno:
nova porta-mistério se apresenta.
Amei profundamente mais o adorno
do que o real sem véus dessa tormenta
imóvel diariamente sobre a mesa.
A casa chama, e como quem se isenta
dos crimes cometidos sem defesa,
retorno machucando a relva rala,
amando o velho engano da beleza.
Mas foi belo o que amei? Entro na sala
e encaro: se devia ter amado,
neguei, e o que neguei não se encurrala.”
A tarde vem, e um vento abandonado
vadia no terreiro, desce a estrada,
enruga o espelho d’água aveludado
do córrego. Uma voz, meio cansada,
desdobra-se no vento, vem da fonte
atrás da casa, em tom de caminhada:
“Conheço seixo a seixo cada monte,
a língua dessas árvores sem fruto,
a retórica limpa do horizonte,
e às águas já paguei o meu tributo.
Dores vividas mais do que pensadas;
feito quem inquiriu demais escuto
as nuvens de dezembro sossegadas.
Se tenho o coração chagado? É certo,
ao sondar os meandros desta estada
diviso a desrazão do meu deserto,
a agonia sonora dos caminhos,
Sísifo delirando-se liberto,
não sabia o que amava, amei moinhos;
espesso turbilhão em andamento
como quem grafa aéreos pergaminhos;
a espera destrutiva, o acatamento
do milagre brutal de ter nascido;
a paixão explodida, o gozo lento,
a secura vital do transentido;
minhas manhãs morais sem testemunho,
o claro em negação do qual duvido
do remorso enlaçado no meu punho;
aceitar que nos prove com Caim,
de sermos desse entorno vil rascunho
(coisa arrancada ou lógica do fim?);
fazer do Teu silêncio uma morada,
da dor o jugo-ônus do festim,
quando, enfim, a inocência for julgada,
do gesto generoso de esperança
brotará espontânea madrugada;
abandonada, não, Senhor, avança
nos ossos a ferrugem da recusa,
autoprocura-se, mas não se alcança,
engendra dédalos, depois acusa
e zomba, e zomba e ri da alma perdida;
abandonada, não, Senhor, confusa
talvez em luz de reza arrependida:
piedade para quem sabendo, cai,
astúcias desse túnel sem saída
aonde o trem contrário vem e vai,
se reluz é o verniz de novo engano,
e a luz na própria luz já se contrai!”
Segue a voz do riacho em seu arcano...
2007-2009

Fantástico. Li em voz alta...
Lindo!!!!