Rua da Graça 56
"Romance do mar", um poema.
Desenho meu.
ROMANCE DO MAR Para Rodrigo Duarte Garcia Na imensidão imóvel das marés, o sol navega e sonha o sal das águas. Na solidão da onda o azul naufraga e o espaço na inteireza é um convés. Aqui, onde só anjos põem os pés, onde começa e finaliza a onda e a luz dentro da luz se faz redonda, o mar sussurra aos peixes profundezas; a língua a transluzir é portuguesa, chamada pelo mar pra que responda: os ventos longamente vêm do Norte, se enredam em silêncios muito vivos; desenham alfabetos primitivos na espuma onde um cristal brilhou mais forte. Não há nuvens nem aves, de tal sorte que o espaço é substância em testemunho. Lugar onde Deus fez do mar rascunho do tempo — navegante sem sextante. À flor do espaço, o ar se torna instante e leva transparência junto ao punho. Aqui, a água medita e o sal se alegra em ser somente ser, assim o azul — na imensidão imóvel está nu e dita ao céu e ao sol antigas regras anteriores ao tempo. Deus entrega esse fulgor paralisado em mar; convida qualquer um a se calar, na solidão selvagem: meio-dia. Talvez seja brutal essa harmonia, nascida para a sede navegar. O mar mudou-se em barco na distância. Vem na rosa-dos-ventos, com pedágio (toda navegação traz seus naufrágios, saber os rumos não evita a errância). As ondas se repetem na mudança; o mar é o mundo e dá (sem Cabo Antes) clareza e vastidão aos tripulantes; a estranha calmaria dos abismos; detesta os que navegam por turismo, porque o mar é de Deus num só instante. No barco, na distância, em mar aberto (as águas guardam mapas mais antigos — de Tróia aos portugueses foi jazigo), velejam corações à descoberto: um perde-se em penínsulas incerto nos radares sem fim da própria mão; aquele vê-se em praias, eis Adão, só quer do mundo a flor inconsequente; um há que faz do mar um mar doente, porque só sabe ler na luz seu não. Alguns a amar medusas de aluguel têm sangue e pesadelo nas pupilas; aquele sonha ao sol qualquer sibila e quer fazer do azul o seu troféu; ess’outro rebaixou à terra o Céu, no engano da matéria sem saída, sabendo da matéria: está ferida — não pode se curar por mais que tente —; aquele quer erguer do mundo um ventre: um Jonas engolindo a desmedida. Assim vão todos, mas há um (ó praias!), sabendo nos corais os tubarões, aceita das marés imperfeições e das embarcações intui tocaias (na polpa das manhãs a noite raia); sabe do provisório e do precário nascido em qualquer sopro necessário. E por saber seu fardo é mais robusto. Verdade conhecida tem seu custo e o custo de uma alma é o Calvário. O mar é um deserto, mas de sal. Mantém todos os náufragos cativos, as ondas também têm os seus motivos, cada ponto do azul é azul central — o mar é a eternidade horizontal. Aqui, na margem sul, meu bergantim, os pés na praia, o olhar — um farolim — reflete o espaço e o espaço amplia o mar, chamando-me sem voz a navegar. O mar espelha o mar que não tem fim. 09/07/2025—08/07/2026



É ler e sentir-se à beira-mar, ser transportado. Que belo poema, poeta.
João, eu queria saber de onde você tira isso tudo. Pra mim é um mistério.