Rua da Graça 55
"Procissão noturna", um poema.
Desenho meu.
PROCISSÃO NOTURNA Maior na morte Que no esplendor. Murilo Mendes É a luz quem diz: a noite ali é um ladário, com superluas avermelhadas deitando manchas lá nos pináculos, sabem frontões, sabem acantos: — noite sem brasa não purga nada; esse o seu múnus: na vastidão fixar o vasto, dizer que o não só é possível na duração; risca o retábulo, técnica e lágrimas, risca o Terreiro, risca pilastras, e essas volutas tão heteróclitas, quase caprichos da Ordenação, de nomes linfas, de nomes pássaros, e essa metade (sendo o que somos) entre os arcanjos e a besta-fera. O velho assombro lá no Terreiro, pervaga os frisos, nega as janelas, goza ornamentos desse horror vacui de uma centúria de passamento e contradição. Nossa Senhora das Maravilhas, acolhe e avisa — essas e outras pestes virão. Trasanteontem, ou agorismos, o pesadelo pré-fabricado na multidão. O olho do drone das torres vivas vasculha os becos, rastreia azuis, e qualquer pista d’ocres antigos, o sujo selo do róseo sujo, os mil telhados do quadrilátero, o caramujo indestrutível que o tempo é. O olho do drone das torres clérigas, cruz da Basílica, seu raio enxerga a morte além, o mar sem fé; o de sargaços, peixes e abismos, navegações tão naufragáveis ontem e sempre, fulge um cansaço; e esse outro mar, esse que escoa passos perdidos, e no Terreiro tão devagar se despovoa — ouve os ruídos? No Pelourinho, Praça da Sé, também no Largo de São Francisco, no Santo Antônio Além do Carmo, mar transfinito, dupla corrente, uma que morre segue viagem, uma respira o que não sabe, e ainda é noite. Noite manchada de muitas noites, essa mais física quase tocável; ali no adro alvenaria polindo crenças, noite empilhada — arcos de pedras, ferros e altares, ouro e madeira (nossas ausências), talha dourada; são consistórios em átrio e nave, que não ressonam ou resvalando (quem endoenças?) nos interstícios de tantas noites; repare nessa Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, seu ossuário urnas e urnas — o pó dos nomes. Sugerem as lápides fugindo à fuga (pedem clemência) do apagamento total a todos, nomes e nomes se autoconsomem de esquecimentos. Pois este mundo nasceu errado, mas ter nascido tão provisório não diminui a sua arte. É que o passado não quer parar, vestir a voz com algum mito; frio de febre serpeiam ruas, vielas podres, almas dopadas com o mal de agora, os falsos êxtases, éden sintético; esses zumbis nos casarões (outra colônia) catam o cobre da própria insônia, de papelão, de alumínio, o cobre plástico que trocarão por qualquer transe; esses zumbis, os mortos-vivos, são quase todos a pele d’África, e ainda é noite. Goteja o tempo no chão do pátio, o instante imóvel além dos planos aquém da história; quantos fantasmas passam incólumes: quem salmodia (Vieira, Eusébio?) contra os desmandos de espada e pena? Quantos fantasmas (Joaquim da Rocha, Gregório, Gama?) dobram esquinas em tais desoras? Também o Nóbrega, porque passar não vê a quem, e cada vivo sonha-se ápice, mas é sumiço. São incontáveis, em nome ou risco, esses fantasmas. Na branquitude dos paredões, o olho do drone orbita em febre. Chegou impuro, rouba a si mesmo e nega o roubo; transborda em treva, o excesso oculta, são muitas mísulas, barroco e bordas; no chafariz pousa sem guia, mas não descansa; do tempo almeja a noite clássica, mesopotâmica, sem reduzi-la (o que é difícil) ao manuseio ingrato e infértil das panaceias. E ainda é noite. 27/05/2021—21/03/26


