Rua da Graça 54
Um poema de João Cabral de Melo Neto
João Cabral por Bob Wolfenson.
GRACILIANO RAMOS: Falo somente com o que falo: com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol que as limpa do que não é faca: de toda uma crosta viscosa, resto de janta abaianada, que fica na lâmina e cega seu gosto da cicatriz clara. *** Falo somente do que falo: do seco e de suas paisagens, Nordestes, debaixo de um sol ali do mais quente vinagre: que reduz tudo ao espinhaço, cresta o simplesmente folhagem, folha prolixa, folharada, onde possa esconder-se a fraude. *** Falo somente por quem falo: por quem existe nesses climas condicionados pelo sol, pelo gavião e outras rapinas: e onde estão os solos inertes de tantas condições caatinga, em que só cabe cultivar o que é sinônimo da míngua. *** Falo somente para quem falo: quem padece sono de morto e precisa um despertador acre, como o sol sobre o olho: que é quando o sol é estridente, a contrapelo, imperioso, e bate nas pálpebras como se bate numa porta a socos. MELO NETO, João Cabral de. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, p. 287-288.
Segundo o crítico Antonio Carlos Secchin, a obra de João Cabral de Melo Neto logra criar uma gramática dentro da poesia brasileira. Ou seja, a sintaxe, a morfologia, os fonemas são elementos constitutivos do fazer poético, e, assim, é como se a língua refletisse sobre si mesma. A tal ponto que a poesia cabralina procura individualizar, de modo mais cerrado possível, a sua própria voz. Uma parte considerável da obra do grande pernambucano é voltada para a metalinguagem, a reflexão do processo criativo poemático.
Outra característica evidente é o apuro formal do poema. Aqui, o termo precisão vem a calhar, nessa obra que tem como baliza a figura do engenheiro. O construto é mais visual do que sonoro apesar da música conscientemente dissonante buscada por Cabral.
O título “Graciliano Ramos:” termina com dois pontos como se o autor de Vidas secas falasse em forma de um monólogo. A intertextualidade não é acidental. Quais são os traços estilísticos atribuídos à obra de Graciliano? Texto enxuto, ritmo seco, precisão vocabular, pouca adjetivação, antissentimentalismo, objetividade, denúncia social; a geografia onde está situada os seus romances é o nordeste brasileiro e sua paisagem árida. Todas essas características indicadas são visíveis na poesia de João Cabral. Até no quesito ideológico eles se conformavam.
O metro usado no poema é o octossílabo, variando em quatro versos apenas – duas redondilhas maiores e dois eneassílabos. O que não foge do andamento rítmico do verso octossilábico de feitio mais pausado não obstante a sua brevidade. No entanto, esse andamento compassado é conseguido à escolha vocabular, e, mais ainda, a prosódia, isto é, a variação na altura, na intensidade, no tom, na duração e ritmo, que se aproxima da fala nordestina, mais precisamente à dicção pernambucana. A dicção é incisiva, cortante.
A rima é toante. Algumas como exemplo: palavra/faca, abaianada/clara, paisagens/vinagre etc. Nas quatro primeiras estrofes há uma contaminação sonora dessas rimas. Os sons das toantes reverberam nessas quatro estrofes iniciais. Esse tipo de rima é uma influência da poesia ibérica na poesia cabralina.
A rima é um elemento tardio da poesia. De acordo Massaud Moisés “sua gênese estaria nos hinos cristãos dos primeiros séculos.” (1992, p. 435) Sobre a rima toante, diz ainda o crítico paulista:
Praticamente específica dos poetas espanhóis, foi empregada com certa frequência em Portugal após o domínio dos Filipes (1580-1640), e assim perdurou até o século XVIII, quando entrou em desuso. Todavia, podem ser encontrados exemplos de rima toante já na lírica trovadoresca galaico-portuguesa, e depois da eclosão do Romantismo em poemas genuinamente populares [...]. E no Romantismo brasileiro foi cultivada par a par com a rima consoante. Em seguida ao Simbolismo, encontrou novo alento na poesia de Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Henriqueta Lisboa, João Cabral de Melo Neto e outros. (MOISÉS, 1992, p. 437)
João Cabral levou a rima toante às últimas consequências, se assim posso dizer, e ela soa quase a não ser uma rima. Para ficar em dois exemplos colhidos ao acaso na obra dele: tábuas/despintadas, andaluza/ruas.
Objetivando conscientemente os seus limites expressivos, o primeiro verso, que vai se repetir quatro vezes como um refrão com variações – “com o que”, “do que”, “por quem” e “para quem” –, é uma profissão de fé estética: o sujeito lírico declara os seus princípios. Ao demarcar a sua matéria linguística – “com as mesmas vinte palavras” –, ele vai estabelecer como se dará o manejo dessa matéria – “girando ao redor do sol/que as limpa do que não é faca”. E, assim, ele vai proceder em todo o poema.
Se na poesia o foco de atenção é a linguagem trabalhada artisticamente, em Cabral a língua é elevada como um tipo de personagem à enésima potência. Por isso, em grande parte da obra, o tema recorrente é o metapoema.
Na segunda estrofe há uma ironia ácida contra a grandiloquência baiana, que ficou conhecida por sua abundância discursiva principalmente na poesia de Castro Alves, e na retórica de Rui Barbosa. No verso “resto de janta abaianada” há também uma referência à rivalidade cultural entre Pernambuco e Bahia, ou melhor, entre Recife e Salvador.
O antilirismo cabralino busca e efetiva um tipo de assepsia linguística. Palavras e imagens remetem sempre para essa estranha higienização. A palavra sol aparece quatro vezes. É metáfora que funciona como eixo temático. O sol limpa, o sol como “quente vinagre”, o vinagre purifica e conserva, o sol regula e impõe suas condições, o sol é insone “sobre o olho”, o sol é sonoro, “estridente”, o que é uma bela imagem sinestésica, e, finalmente, o sol é violento, pois “bate nas pálpebras como/se bate numa porta a socos”. Termos que se referem a objetos cortantes – faca, lâmina –, ou intentam descarnar a língua ao mínimo da enunciação – “que reduz tudo ao espinhaço” –, porque, segundo essa concepção, o que assim não for pode ocultar o engano – “onde possa esconder-se a fraude”. A paisagem favorável para tal empreendimento é a nordestina e o seu clima seco. A ave que aparece é uma rapina, o gavião. Ave agressiva e temida.
Todo o poema reflete, de certo modo, o aspecto feio, que deseja ser visto em sua elegância esquelética, em sua capacidade linguística redutora.
Percebam: mesmo com toda essa severidade e rigor linguístico, essa aspereza rítmica, a sonoridade dissonante, é um poema que se reveste de certa nobreza, ou, pelo menos, aspira a essa nobreza.
A “mensagem” que o poeta deseja transmitir se realiza a contento no próprio corpo do poema. Isto se dá por tudo já indicado antes. Forma e fundo se coadunam magistralmente.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MELO NETO, João Cabral de. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, p. 287-288.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo, Cultrix, 1992.



Obrigado por seu trabalho, caríssimo poeta.
Uma verdadeira aula. Obrigada por compartilhar, amigo