Rua da Graça 53
Um poema de Cecília Meireles.
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional.
Comentário crítico escrito por volta de 2020.
ROMANCE LIII OU DAS PALAVRAS AÉREAS Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! Ai, palavras, ai, palavras, sois de vento, ides no vento, no vento que não retorna, e, em tão rápida existência, tudo se forma e transforma! Sois de vento, ides no vento, e quedais, com sorte nova! Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! todo o sentido da vida principia à vossa porta; o mel do amor cristaliza seu perfume em vossa rosa; sois o sonho e sois a audácia, calúnia, fúria, derrota... A liberdade das almas, ai! com letras se elabora... E dos venenos humanos sois a mais fina retorta: frágil, frágil como o vidro e mais que o aço poderosa! Reis, impérios, povos, tempos, pelo vosso impulso rodam... Detrás de grossas paredes, de leve, quem vos desfolha? Pareceis de tênue seda, sem peso de ação nem de hora... – e estais no bico das penas, – e estais na tinta que as molha, – e estais nas mãos dos juízes, – e sois o ferro que arrocha, – e sois barco para o exílio, – e sois Moçambique e Angola! Ai, palavras, ai, palavras, íeis pela estrada afora, erguendo asas muito incertas, entre verdade e galhofa, desejos do tempo inquieto, promessas que o mundo sopra... Ai, palavras, ai, palavras, mirai-vos: que sois, agora? – Acusações, sentinelas; bacamarte, algema, escolta; – o olho ardente da perfídia, a velar, na noite morta; – a umidade dos presídios, – a solidão pavorosa; – duro ferro de perguntas, com sangue em cada resposta; – e a sentença que caminha, – e a esperança que não volta, – e o coração que vacila, – e o castigo que galopa... Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! Perdão podíeis ter sido! – sois madeira que se corta, – sois vinte degraus de escada, – sois um pedaço de corda... – sois povo pelas janelas, cortejo, bandeiras, tropa... Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potência, a vossa! Éreis um sopro na aragem... – sois um homem que se enforca! MEIRELLES, Cecília. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987, p. 492-494.
No Romanceiro da Inconfidência Cecília Meireles realiza um dos mais excelentes livros de poesia com fundo histórico e sociopolítico em língua portuguesa. É uma obra-prima no todo e nas partes sem jamais perder sua intensidade lírica. O título já remete para o tema – a Inconfidência ou Conjuração mineira, de 1789. No “Guia do leitor”, encontrado como longo rodapé da edição da Nova Aguilar, de 1987, o crítico paulista Darcy Damasceno resume, de modo exemplar, o plano geral do livro:
Em suas linhas mestras, o Romanceiro da Inconfidência exibe uma bem lograda combinação de dados históricos e elementos inventivos, de relato, monologação e diálogo, de planos temporais e espaciais. Um fio narrativo passa através dessa centena de romances sem que a ação se sobreponha à reflexão; cortes periódicos ora determinam a mudança de ambiente ou de figuras, ore permitem ao narrador surgir frente ao público e sugerir-lhe nova situação dramática. Obra panorâmica no mais legítimo sentido, o Romanceiro deixe perceber, entretanto, cinco partes bem definidas: a do ambiente, a da trama e frustração, a da morte de Cláudio e Tiradentes, a do infortúnio de Gonzaga e Alvarenga, e finalmente a da presença, no Brasil, Rainha D. Maria. (DAMASCENO, 1987, p. 405)
O “Romance LII ou das palavras aéreas”, ponto do nosso interesse neste comentário crítico, pode ser lido, num primeiro relance, como um metapoema de ordem moral. O dístico de lamentação irônica – “Ai, palavras, ai palavras/que estranha potência, a vossa!” – desempenha o papel de refrão, e se repete cinco vezes. A estranha potência é um contraste entre o poder efetivo da palavra e sua decantada fragilidade. Ao mesmo tempo em que ela é de vento, e vai no vento ao ser pronunciada, a palavra consegue a proeza de dar sentido à vida, e a tudo que está relacionado à existência humana – amor, sonho, audácia, calúnia, derrota etc. A segunda pessoa do plural – sois, ides, quedais – infunde uma solenidade esquisita a ação da palavra.
Percebam a gradação perspectivada das três estrofes iniciais: o tom de definição geral da primeira – a estranha potência das palavras que são de vento –, que continua na segunda estrofe – “Todo o sentido da vida/principia à vossa porta” –, entre outros exemplos usando imagens positivas da lírica de todos os tempos – mel, amor, perfume, rosa –, e também as negativas com o mesmo tom geral – calúnia, fúria, derrota –, para, no final da terceira estrofe, seguir nas generalidades, mas, agora, num crescendo modelar que se amplia formidavelmente – reis, impérios, povos, tempos.
Somente na quarta estrofe, o tom geral se particulariza. Concentra-se, por assim dizer, nas circunstâncias históricas nas quais se passa o “enredo” do livro – detrás das paredes, no bico das penas, na tinta, nas mãos dos juízes, nos grilhões, no barco levando os condenados para o exílio, e o país de destinos dos exilados. O território é a antiga Vila Rica, hoje Ouro Preto, no momento que está acontecendo a repressão portuguesa aos inconfidentes.
Nas estrofes seguintes, continuará a particularização que indiquei, sempre numa gradação, um passo a passo, mostrando, como uma câmera de cinema, o desenrolar dos acontecimentos. Vejamos como isso se dá nas duas últimas estrofes.
O tom geral do refrão é repetido. A palavra poderia ter sido perdão, mas não foi, então, o eu lírico conduz o olhar do leitor na sucessão dos acontecimentos desencadeados pela potência das palavras – “sois madeira que se corta” –, criando a expectativa por meio das informações em torno do cadafalso – “sois vinte degraus de escada”, “sois um pedaço de corda” – e do público que assiste – “sois povo pelas janelas/cortejo, bandeiras, tropa...” – o homem sendo levado para a forca, no caso, o alferes Tiradentes, que acaba enforcado.
As ações da palavra e os seus efeitos são o fio condutor desse romance. Por que eu disse que essa peça pode ser lida como um metapoema de ordem moral? O lugar comum da poesia de viés metalinguístico é a profissão de fé, ou seja, o eu lírico revela o seu modo de conceber um poema. No romance em questão, há uma meditação lírica das consequências das faculdades criativas da palavra, sejam elas boas ou más.
Percebam a verossimilhança entre a forma – o romance de raiz luso-ibérica –, e o tema histórico. O romance, ou romança, surge entre os séculos XII e XIII, em língua românica, em oposição ao poema em latim. Geralmente narrando feitos históricos ou aventuras galantes. O tema do Romanceiro da Inconfidência narra um episódio real da nossa história política. A escolha da forma romance pela poetisa carioca foi bem adequada.
A verossimilhança, apontada acima entre a forma e o tema, se torna ainda mais impressionante ao analisarmos dois verbos usados no poema. A conjugação no pretérito imperfeito de ir e poder – íeis, podíeis – é um detalhe, digamos, técnico nada vulgar, muito pelo contrário. Assim, a forma verbal se harmoniza ao todo poemático magistralmente: para o tema histórico – a Inconfidência mineira – o romance, uma das formas poéticas mais antigas da nossa língua, cai como uma luva, e a conjugação verbal – o pretérito imperfeito – salientada acima, se coadunam com o falhanço do tema histórico trabalhado pela poetisa carioca.
A rima toante empregada por Cecília difere da de João Cabral. Aquela prefere a toante mais natural à língua. Não pretende a estranheza sonora, antes sua harmonia. Alguns exemplos: vossa, retorna, transforma, nova, porta rosa, derrota. Em João Cabral o uso da rima toante é, como ele mesmo diz, antinatural.
O lirismo praticado por Cecília Meireles é o que eu chamo de lirismo de pensamento. Ou seja, as sensações, os sentimentos, os dados do mundo exterior ao serem expressos são filtrados primeiramente pela razão sem perderem o seu caráter de lirismo autêntico. Mesmo nos poemas de teor excessivamente sentimental há um equilíbrio meditativo na construção; o sentimento, por mais trágico, não transborda em afetações desmedidas. O autodomínio transparece na feitura dos versos.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MEIRELLES, Cecília. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987.



Obrigado por essa aula, mestre!
Meu amigo e mestre, o uso dos verbos na segunda pessoa não seria uma forma dela registrar o fato histórico, sem dizė-lo? E, ao mesmo tempo, mostrar na prática essa estranha potência das palavras?