Rua da Graça 52
Mais um soneto de Bruno Tolentino (1940-2007).
O texto abaixo foi escrito em 2020.
3 Não contai a ninguém que não vos creia o quanto a luz padece; baste apenas com colher um coral solto na areia e confiá-lo a um par de mãos morenas, ou alvas como as pérolas e as penas da pomba vesperal à lua cheia; observai-as, como o manuseia, como o desfaz, e meditai nas cenas que outras mãos igualmente minerais teceram, tentadoras, tela a tela, mas a distâncias como a alturas tais que tudo quanto sofre se rebela: a pior traição é a que se faz quem vendo a luz sangrar fecha a janela. TOLENTINO, Bruno. O mundo como Idéia. São Paulo: Globo, 2002.
O soneto começa com um conselho simples e prudente: “Não contai a ninguém que não vos creia/o quanto a luz padece”. Ou seja, guarde segredo a quem despreza a grandeza da luz e o seu sofrimento. Equivale dizer também em outras palavras: “Não jogue pérolas aos porcos”. Talvez, numa leitura enviesada pode-se perceber nessa postura apenas soberba. Mas, soa-me como cautela diante da liberdade do outro de não querer dar ouvidos a determinados assuntos, por mais importantes que eles sejam para nós. Difícil de aceitar? É, no entanto, necessário.
Os versos seguintes dão concretude à metáfora da luz: “um coral solto na areia”, colhido por um par de mãos morenas ou alvas. As mãos podem ser brancas e preciosas como as pérolas. A cor não importa. Importa sua nobreza em se compadecer da luz morrente. Por isso elas são como as pérolas. A persona-lírica pede ao sujeito oculto, a quem ele se dirige, para prestar atenção de como as mãos tratam o coral, e compare esse tratamento ao que outras fazem, e medite nesse fato. Essas outras mãos são minerais. Ou seja, secas, duras, frias. E “teceram, tentadoras, tela a tela”. Estas deixaram-se tomar pela tentação de fazer a realidade (o mundo) à sua imagem e semelhança (a ideia).
Esse é um perigo da condição humana. Por isso, esse verso magnífico: “tudo quanto sofre se rebela”. Aqui, o poeta carioca foi genial ao pé da letra. Sintetizou num verso um mundo inteiro. É doloroso perder as pessoas que amamos. Ver o desaparecimento dos lugares que trazem memórias queridas. Porque, definitivamente, tudo desaparecerá. E nós queremos ficar de alguma maneira. A arte não é para impedir a morte do mundo. Mas para fazer com que conheçamos, aceitemos e aprendamos a morrer.
Há um eixo temático central na obra poética de Bruno Tolentino: o problema da relação entre arte e natureza, da representação, da mimese. É tema antigo, está em Platão e Aristóteles, e Tolentino leva às últimas consequências. Em outras palavras: como a arte, ou qualquer construto artístico, filosófico, científico, político, pode dar conta de algo que está em constante mudança? Como não cair no perigo do conceito, do mundo como ideia?
De um lado, o mundo em transformação contínua, a natureza, as pessoas, a sociedade, tudo isso em fuga o tempo todo, sempre escapando de nós. Nós desejamos profundamente que as coisas não desapareçam, a beleza não morra, que as pessoas amadas amamos continuem vivas para sempre. Desejamos que alguns momentos maravilhosos de nossas vidas não acabem nunca.
Do outro lado, a arte tentando captar essa fuga, tentando dar alguma resposta para essa impermanência. Como a arte vai trabalhar com tal fugacidade? Se ela é uma construção que se deseja duradoura, e aspira mesmo à imortalidade? E aí está o perigo com o qual Bruno Tolentino bateu-se em grande parte de sua obra poética. Não prender, não encarcerar, essa mudança contínua num conceito, numa ideia separada da realidade. Todas as dimensões do conhecimento humano podem cair nessa armadilha.
A comparação da atitude do par de mãos diante da fragilidade do coral na areia é de ordem moral. Sem dar o menor indício de sectarismo, a persona-lírica convoca o leitor a também ter uma reação adequada ao ser confrontado com esse fato.


