Rua da Graça 49
Alguns poemas do Rezas II.
A foto que consta na capa do Rezas I é de Rodrigo Veloso. Na quarta capa há outra foto dele.
Por iniciativa, e muito empenho, do meu amigo Alexandre Fontanelli, em 2023 publiquei o livro de poemas Rezas I. Fiz uma subscrição (conhecida como “vaquinha”, e, mais atualmente, como crowfunding), e deu tudo certo. Tão certo que, ano passado, saiu uma segunda edição. Tanto esta quanto a primeira foram de 300 exemplares. Vendi quase todo o estoque. A divulgação na “imprensa” foi feita por meio de minha conta no Instagram. Considero-me um best-seller. Ironias à parte, tenho escrito o Rezas II, mais um bocadinho e finalizarei a terceira seção. A ideia é – se Deus permitir – escrever o Rezas III (já começado) e fechar um ciclo. O vislumbre inicial, tido em 2018, era escrever um rosário completo de sonetos. Sim, 150. Mas a realidade da escrita tem suas humilhações particulares e pés no chão obrigatórios. Ao finalizar os 33 sonetos do Rezas I, eu já pedia arrego. Havia corrido sedentário uma São Silvestre e cheguei na rabeira, de maca. Contudo, além de minhas forças, continuei me arrastando e escrevi os 33 sonetos do Rezas II, ainda inédito em livro.
Abaixo, três deles.
REZA LXI Fé Ficai, Senhor, comigo. Tenho medo. A noite é vasta e minhas mãos pequenas. A escuridão desenha, desde cedo, o escárnio dessas íntimas hienas. Ficai, Senhor, comigo. Estou perdido. A dor é longa e o dia tardará. A treva em torno rosna os seus ruídos e o cerco sobre mim vai se fechar. O coração é pobre e tem falhado (mas um sol invisível tece um fio sustentador de tudo, sem alarde). Eu não sei o caminho, estou no chão numa rua esquecida do Brasil. Senhor, guardai-me em vosso coração.
REZA LXII Esperança Perguntei o Seu nome e veio a aragem, tão leve, menos do que o ar em março. Presença a prescindir de uma paisagem, mas que mantém o ser no ser do espaço. E eu soube sem palavras (sol no céu) da espantosa esperança do Seu nome. Desfez todas as culpas de Babel, e o próprio inferno já não nos consome. A Esperança em pessoa (luz sem sombra) em sangue e sacrifício se prolonga; e lanço-me aos seus pés como afogado. Seu nome não se aparta, é sempre agora (a noite é mais profunda antes da aurora), sustenta nos Seus ombros meus pecados.
REZA LXIII Caridade Move o sol, move o mar, e move o mundo, o coração das coisas e da vida (e de si mesmo a si mesmo é oriundo); a matéria e as galáxias são movidas. Move o céu, move os anjos, move o tempo, e move a mão da mãe no amor sem ônus. Nada haveria sem seu movimento, a eternidade dorme no seu sono. Não se envaidece, tudo espera e crê, tudo suporta e mais perdoa alegre; inútil sem ti monte se mover. Mantém e move o ser, eis seu motivo. E quando parecer com a própria febre, ainda assim será Amor mais vivo.



Meu Deus do Céu, João! Tenho que plagiar Mário Quintana para dizer que sua reserva de rezas é um Baú de Espantos... três sonetos sublimes! Disso tenho orgulho: ter dito, lá por 2014, que seus poemas me faziam rezar. Tudo começou para mim com uma reza que ainda não era oficialmente reza: Capela do Hospital Santo Antônio. Obrigado!
Simplesmente belo. Há fé viva no conteúdo e cuidado verdadeiro na forma. O primeiro soneto não é apenas uma oração bonita; é atual, necessária e lúcida para o nosso tempo.
Parabéns pelo trabalho. Que Deus o abençoe e fortaleça sua escrita.